11 de jul de 2017

Bom futebol "escondido" num bairro de Buenos Aires...


Apesar de este ano o ter feito muito menos do que é habitual, gosto sempre de tentar acompanhar algumas ligas e/ou equipas menos mainstream, na esperança de encontrar equipas que se destaquem por fazerem as coisas de forma diferente do que é, infelizmente, a norma. Nesse espírito, quando li o tipo de elogios que  eram feitos à equipa sobre a qual vou falar abaixo - nomeadamente o facto de ser uma equipa extremamente ofensiva, com muita qualidade em posse e na qual os jogadores conseguiam jogar um futebol bastante diferente do usual numa aguerrida, disputada e pouco pensada 2ª divisão argentina - senti a necessidade de a ir conhecer. Devido às maravilhas da internet, daqui ao bairro de La Paternal em Buenos Aires é um saltinho, por isso pude ver alguns jogos e perceber como joga, de facto, o Argentinos Juniors de Gabriel Heinze.

Sim, leram bem. Gabriel Heinze será certamente muito mais reconhecido pela sua carreira como jogador - apesar de uma passagem relativamente incógnita por Alvalade, no início da carreira - , mas o trabalho que fez este ano leva a crer que também como treinador terá algo de diferente do habitual para apresentar. Teve um começo atribulado, sendo muito criticado pelos adeptos do clube pelo estilo de jogo demasiado "rendilhado" e, acima de tudo claro está, pelos resultados titubeantes. Mas como o próprio Heinze disse recentemente, quando um jornalista lhe referiu a forma como convenceu os adeptos, "Convencer os adeptos não me interessa minimamente (...), importante é convencer os meus jogadores", e a verdade é que o fez. A equipa já garantiu a subida ao primeiro escalão argentino, a três jornadas do fim, estando muito próxima de garantir mesmo o 1º lugar da competição (sobem os dois primeiros), e isto tudo orientando um plantel muito jovem e sem ter uma qualidade individual especialmente diferenciadora da concorrência. É um confesso admirador de Marcelo Bielsa, que o orientou como jogador, e as comparações que se fazem entre ambos não são, de todo, descabidas...

Feita esta introdução, passemos ao que interessa, a forma como jogam. Partem normalmente de um 4x3x3 (embora em alguns jogos o médio-defensivo jogue mesmo a central, especialmente contra equipas com 2 avançados), e jogam, de facto, de forma contra-cultural (tendo em conta o que foi descrito acima da 2ª divisão argentina). É uma equipa que estima a bola e procura não a oferecer de barato em zonas de construção, e, acima de tudo, extremamente trabalhada com bola e na forma como pressiona/reage à perda. Tanto nos pequenos jogos posicionais que estabelece nas fases iniciais, variando o número e posicionamento dos jogadores consoante a pressão adversária (que normalmente é muito pouco compacta verticalmente, diga-se), seja ela com um avançado ou com dois, como na forma muito interessante como procuram explorar movimentos de rutura, sempre de forma muito agressiva e com variações posicionais, como por exemplo o extremo deslocar-se para fora, arrastar o lateral adversário consigo enquanto que o próprio lateral do Argentinos, estando projectado, movimenta-se também nas costas da defesa mas em direcção ao corredor central, aproveitando o espaço, isto enquanto o avançado da equipa desce para servir de apoio frontal. Há vários movimentos destes claramente mecanizados, e a equipa consegue criar imensos desequilíbrios através deles. Sem bola, é uma equipa muito agressiva tanto na pressão como especialmente na reacção à perda, conseguindo juntar a essa agressividade um nível de compactidade bastante interessante, juntando de forma muito rápida bastantes jogadores na zona da bola. A contundência já referida na invasão da área adversária em movimentos de ruptura também se mostra nos momentos em que a equipa está muito perto da área adversária, conseguindo povoá-la com 3 ou mais jogadores na clara maioria dos momentos em que se espera um cruzamento. Para além disso, também têm alguma competência na utilização da bola para gerir vantagens. No fundo, é uma equipa que se impõe constantemente aos seus adversários, muitíssimo associativa e com uma dinâmica colectiva quando ataca muito diferente do que é habitual ver-se, o que é mais um de muitos exemplos de que quem acha que o movimento ofensivo não se trabalha e que depende basicamente dos jogadores que a equipa tem devia simplesmente fazer o favor de se teletransportar para a Idade da Pedra e ficar por lá, já que as suas ideias se coadunam muito mais com esse período da História. A qualidade individual influencia e muito o que se faz com bola, claro (como até se vai ver nas críticas apresentadas abaixo), mas subestima-se de forma criminosa o que uma equipa realmente trabalhada e que procura os caminhos certos com bola pode render, mesmo não tendo os melhores jogadores...

No entanto, a estes aspectos muito interessantes, acrescem outros que, a meu ver, seriam passíveis de melhoria. E aqui falo especialmente de três detalhes. O primeiro, que na realidade não é bem um detalhe - já que se refere a todo um momento do jogo - está relacionado com a falta de pormenor que se nota no trabalho da organização defensiva da equipa. Se com bola se nota um trabalho muito grande, sem ela a equipa comete erros posicionais básicos com alguma frequência e há um exagero de referências individuais que a prejudicam em alguns momentos. O segundo tem que ver com alguns problemas, a meu ver, sentidos pela equipa em ligar a construção à criação (é sempre um bocado complicado definir onde começa e termina cada um destes momentos, mas creio que para este caso em particular ajuda à percepção falar desta forma). A equipa consegue criar superioridades num momento inicial, como já foi dito, e dar preponderância aos seus centrais para progredirem. No entanto, creio que os três médios acabam por ser demasiado rotativos (estando sempre a procurar abrir na ala ou, no caso do médio mais defensivo, a dar apoios demasiado avançados) para que a equipa se consiga ligar por dentro. Estas dificuldades da equipa em ligar-se centralmente com os médios em alguns momentos leva a que procurem em excesso o passe longo para a ala (seja para o extremo ou para o lateral quando está projectado) como forma de progressão e, embora normalmente se procure voltar a zonas mais centrais depois desse passe longo, a ligação seria mais forte caso tivessem um jogo posicional mais bem definido por parte dos médios nessa fase específica. E, por último, embora os seus movimentos na fase de criação sejam bastante interessantes, creio que falta algum equilíbrio entre os movimentos de aproximação e ruptura (exageram nos segundos em relação aos primeiros, basicamente) e, mais até do que isso, os jogadores sentem uma enorme tentação em, muitas vezes, corresponder a cada movimento de ruptura. Isto é provavelmente mais um problema da qualidade individual dos jogadores que do modelo de jogo, mas aí, a meu ver, perde-se parte da utilidade que toda esta dinâmica posicional de aproximações e rupturas pode ter, que consiste exactamente em usar esses movimentos de ruptura como ilusão. As equipas com mestria individual e colectiva suficiente para dominar esta questão (poucas, infelizmente) conseguem usar toda esta dinâmica para criar espaço entre as linhas do adversário, visto que o sector defensivo adversário tenderá (dependendo também das suas ideias) a afundar com as rupturas, e sabem exactamente quando explorar, de facto, a profundidade, e quando simplesmente fingir que o vão fazer, continuando a prender o adversário na sua teia, por assim dizer. Mas repito, isto é algo muito complicado de dominar, e ainda para mais quando a qualidade individual de quem está em campo está longe de ser brilhante.

Vistas as qualidades e os detalhes menos bons da equipa, pode-se concluir que é uma equipa muito interessante, e o futebol que já jogam em apenas um ano de trabalho mostra a competência que o Heinze já tem como treinador. Apesar disso, deverá tentar dar mais alguma atenção ao momento de organização defensiva da sua equipa (especialmente se ficar no Argentinos Juniors para o ano, na 1ª divisão irá enfrentar adversários bem mais fortes) e tentar que as suas equipas se sintam menos tentadas a corresponder aos movimentos de ruptura independentemente do contexto, já que isso os leva a ignorar espaços mais valiosos (entre defesas e médios adversários). De qualquer modo, creio que este grande ex-jogador vai surpreender muita gente que o desconhece como treinador, ficando na sua actual equipa ou assinando por uma equipa de cartel superior.

Abaixo fica um vídeo bastante curto com alguns lances da equipa em certos momentos. Não é um vídeo de análise, até porque só se pretende mostrar ligeiramente aqui exemplos do que a equipa faz melhor, nomeadamente (e por ordem): reacção à perda; saída de pressão de zonas recuadas e movimentos de ruptura.

18 de jun de 2017

O talento (escondido) de Bernardo Silva


Bernardo Silva é, de facto, um craque. E aqui nem me refiro ao aspecto futebolístico em particular, mas mesmo ao nível da ilusão. Não só este jogador conseguiu "enganar" quase toda a Europa e todos os tubarões com o seu futebol, como conseguiu, em particular, enganar Pep Guardiola (treinador razoável) de tal forma que o clube médio que este orienta gastou pelo menos 50M para contar com ele. A pergunta que se coloca é a seguinte: como é possível Bernardo, que conseguindo iludir tanta gente, não o consigas fazer com este selecionador?? Será por não teres sido campeão europeu? (e se foi, o Éder terá uma palavra a dizer...) Ou será que ele acha que não fizeste uma época ao nível de jogadores como Nani, Gelson, André Gomes ou Quaresma? (a bem dizer, não, realmente não fizeste uma época ao nível da deles, mas muito melhor... ao ponto de teres sido campeão francês, o melhor jogador do campeonato e chegado às meias da Champions). Não marcas 50 golos por época? Não, não marcas... mas também não foi isso que iludiu grande parte da Europa, foi sim o teu papel determinante no processo ofensivo da tua equipa.
Realmente, Bernardo, o que digo é que tens de continuar a treinar esse talento da ilusão... pode ser que tenhas uns minutinhos contra a poderosa nova Zelândia...mas não a titular, claro, porque para isso tinhas de esperar que os 4/5 jogadores que estão à tua frente se lesionassem ou estivessem castigados!

PS: Portugueses, não desanimem! Faltam 2 empates, continuar a jogar ao nível espetacular que apresentámos hoje, ganhar a meia final no prolongamento ou nos penaltys e rezar para que o Éder chegue a tempo de poder fazer um golo na final...


Texto escrito pelo leitor Tiago Martins








Os Ases Suecos


A Suécia é, evidentemente, associada no mundo do futebol a um nome em particular - Zlatan Ibrahimovic. Mas não é de um dos melhores avançados-centro da História do Jogo que pretendo falar aqui… pretendo, isso sim, falar de outros dois talentos suecos. Dois jogadores que, eventualmente, passarão actualmente despercebidos aos olhos da maioria dos que vêem futebol, mas cujo talento os projectará para a ribalta rapidamente.

Começo por dizer que ambos representam, a meu ver, o tipo de extremo que se procurará no futuro. Não um extremo simplesmente de 1x1, que jogue fundamentalmente perto da linha lateral e cujo rendimento possa ser traduzido em eventuais desequilíbrios individuais que crie (visto que pouco mais terá a oferecer), mas sim jogadores mais capazes em espaços curtos, capazes de jogar, não só por fora, mas acima de tudo por dentro e com recursos cognitivos a um nível que lhes permita exponenciar as formas que estes têm de criar desequilíbrios no adversário. Continuará obviamente a ser importante que tenham competências no drible, mas não só o tipo de drible mais necessário será diferente – menos um drible longo, com muito espaço para correr e adversários para superar, e mais um drible curto, em zonas povoadas por adversários, que lhes permita manter a bola enquanto magicam soluções para os problemas que lhes são colocados (soluções essas que podem ser estritamente individuais também, dependerá sempre do contexto) – como terão de ter bem mais que isso.

Sem mais demoras, passemos aos jogadores em questão. O primeiro, em bom rigor, será já relativamente conhecido, devido ao nível que apresentou na Bundesliga da temporada que agora findou. Falo de Emil Forsberg, jogador do RasenBall Leipzig. Formado no Malmö, foi contratado pela equipa Alemã e, nas duas épocas completas em que esteve no clube, foi o melhor jogador da equipa (nesta segunda época partilhou esse estatuto com Naby Keita, diga-se) e um jogador fulcral para que a equipa conseguisse subir de divisão – na primeira época – e conseguir um relativamente surpreendente 2º lugar na sua época de estreia na Bundesliga. Forsberg não sentiu minimamente o salto competitivo de uma divisão para a outra, porque a sua qualidade era simplesmente demasiado grande, e permite ao Leipzig ter mais recursos no seu jogo. É um jogador exímio na forma como se movimenta, percebendo sempre se a sua equipa precisa de uma linha de passe exterior ou interior e, mais do que isso, sabendo perfeitamente quais os sítios mais perigosos a invadir, consoante o contexto, para magoar o adversário entre os seus sectores/linhas. E a essa qualidade sem bola junta uma ainda maior com ela… Tem um pé direito incrível, que lhe permite ter, por exemplo, uma qualidade exímia a executar passes complicados. É raro a bola não sair exactamente para o espaço onde deve (que cria a melhor e mais fácil situação ao colega que recebe). Não sendo um jogador extremamente rápido, tem uma velocidade de condução assinalável e grande competência no drible curto, conseguindo desembaraçar-se de vários adversários em espaços reduzidos com facilidade. E, acima de tudo, é um jogador extremamente criativo. Não vou estar a definir “criatividade” outra vez, porque já o fiz em vários posts, mas a forma como define os lances – tanto os mais “simples” (e tantos, tantos há que os estragam constantemente!!) como os mais complexos – é notável e leva-o a conseguir traduzir toda a sua qualidade técnica num contributo enorme à sua equipa, tanto no “palpável” (foi um dos jogadores com mais assistências na Europa, por exemplo) como especialmente no “não palpável”. Mais cedo ou mais tarde irá jogar numa equipa de topo, estou convicto, e mostrar por que motivo, apesar de não jogar na mesma posição, é o verdadeiro herdeiro de Zlatan Ibrahimovic na selecção sueca. Abaixo ficam alguns vídeos que permitem vislumbrar as competências do jogador:







O outro jogador a quem me refiro está num patamar de carreira inferior, por agora, e é normal que seja mesmo desconhecido da maioria, até dos que vão acompanhando algumas ligas para além da nossa. No entanto, a qualidade que tem apresentado na Eredivisie promete levá-lo a patamares mais exigentes com alguma brevidade. Falo de Sam Larsson (quem o reconheceu pela imagem já sabia :) ), jogador do Heerenveen. Chegou ao clube holandês há três temporadas, proveniente do Gotemburgo, e cada vez mais se afirma como um jogador de enorme qualidade. A liga holandesa é uma liga que pode trazer várias dificuldades na análise de talentos, como muitos clubes bem sabem por experiência própria, por ser uma liga em que os jogadores, especialmente de ataque, têm bateladas de espaço para fazer o que bem lhes aprouver e na qual é relativamente fácil conseguirem grandes números de golos e assistências. Mas estou claramente convencido que não é o caso deste jogador, até porque, ao contrário do que é habitual, ele cresce realmente é na situação oposta. É quando o espaço escasseia que ele mostra toda a sua qualidade. Apesar de ser um extremo ligeiramente mais “clássico” que Forsberg, está muito longe de decidir como um. Adora procurar apoios frontais, define com imensa qualidade e sabe transformar os desequilíbrios individuais que consegue criar em lances com verdadeiro potencial. A descrição que foi feita para Forsberg tem bastantes pontos de contacto com a dele, aliás, embora não esteja exactamente ao nível deste nas movimentações em organização ofensiva (procura mais partir de zonas relativamente exteriores para dentro, embora seja muito forte a jogar estando logo dentro). Qualidade técnica acima de qualquer suspeita, 1x1 muito forte (tendo até mais recursos nesta área que Forsberg, por algum motivo o seu apelido no país de origem é “Samba”), aos quais junta a já referida qualidade em termos cognitivos. Seria uma aposta fantástica para, por exemplo, um dos grandes portugueses, entrando a meu ver directamente para o onze inicial de qualquer um deles (acima de tudo no do Sporting, diga-se) visto que junta à qualidade técnica e de desequilíbrio que muitos deles têm a uma capacidade para descobrir soluções em espaços curtos e para tomar constantemente a melhor decisão que, essa sim, escasseia mais em equipas a esse nível (e nem falo necessariamente das portuguesas em particular, aqui. Mais uma vez, abaixo deixo alguns vídeos do jogador:






No fundo, e para concluir, a Suécia está futebolisticamente bem entregue, apesar de o seu melhor jogador de sempre estar cada vez mais perto do fim de carreira. É impossível não reconhecer a qualidade tanto de Emil Forsberg como de Sam Larsson, e, com o grau de certeza relativo que se tem sempre de ter neste tipo de coisas, ambos alcançarão um estatuto e jogarão num patamar superior àquele em que se encontram actualmente – especialmente Sam Larsson.

19 de mai de 2017

Xabi Alonso & Philipp Lahm: os destruidores de mitos


O maior elogio que se pode fazer à carreira de Xabi Alonso e Philipp Lahm é que graças a eles, foi possível, pelo menos para algumas pessoas, perceber que há preconceitos relativamente ao futebol que não fazem sentido absolutamente nenhum. Mostraram ao longo da sua carreira, que independentemente da posição ocupada em campo, o mais importante, aquilo que diferencia os bons dos excelentes, será sempre a inteligência. Tudo o que faziam em campo era com um objetivo. Nada era feito ao acaso porque ambos tinham um tremendo conhecimento do jogo, sabendo assim sempre o que fazer em cada momento. 

"ah e tal, mas se joga a médio defensivo tem que ser muito forte fisicamente ou então isto e aquilo e não sei mais o quê"

"ah e tal, mas se joga a lateral tem que ser muito rápido ou depois não chega a tempo de cruzar e aquilo que tal e mais não sei o quê"

Embora muita gente ainda continue a pensar assim, de certeza que muitos foram influenciados a mudar de opinião graças ao que Alonso e Lahm mostraram ao longo destes anos

Muito obrigado!




10 de abr de 2017

O jogo sem bola quando a nossa equipa a tem - Jorge Jesus e Francisco Geraldes


"Todos estes jovens têm qualidade individual, mas o futebol tem duas componentes, coletiva e individual. Olhando para os 90 minutos de um jogo, tirando o Messi, em 80 minutos os jogadores não têm bola. Por isso se não ensinarmos os jogadores os aspectos táticos não serve de nada ter muita técnica. Se passa 85 minutos sem bola no pé, não interessa nada. O Messi e o Ronaldo é que passam mais tempo com bola. Nós só olhamos para o jogador quando ele tem bola e não pode ser assim."

Estas palavras foram ditas por Jorge Jesus, há exactamente um mês atrás. Este proferiu-as no sentido de responder a uma pergunta que lhe foi feita por um jornalista sobre a possibilidade de Francisco Geraldes jogar na posição "8", no seu modelo, mas, como se percebe, Jorge Jesus vai um bocado para além dessa questão.

Quanto à afirmação propriamente dita, e que serve de ponto de partida para o post, tenho a dizer que concordo em grande parte com ela, mas que tenho mais reservas quanto à intenção de Jorge Jesus ao dizê-la. Concordo em grande parte porque, de facto, é extremamente comum ignorar-se o que um jogador faz quando não tem a bola em seu poder, quando é exactamente nessa situação que passam a esmagadora maioria do jogo e na qual têm de ser fortes para criarem, através da sua movimentação, os melhores contextos possíveis para a equipa. Mas parece-me que há aqui um certo preconceito de Jorge Jesus, ao usar estas palavras para se referir, em parte, ao caso de Francisco Geraldes.

Quando se fala dele, normalmente gaba-se a criatividade, inteligência e qualidade técnica que possui. E bem, claro. Mas o que pode não ser tão claro, e que servirá de ponto principal deste post, é que essa criatividade e inteligência que ele tem não se manifesta apenas quando ele tem a bola. Também nos momentos em que são os colegas que têm a bola esses atributos aparecem, na forma como ele se movimenta e procura os posicionamentos mais adequados ao contexto e, acima de tudo, que mais agridam o adversário. Jorge Jesus referiu que a maioria dos jogadores passam 80 minutos sem tocar na bola, mas há que ver que, num contexto em que a equipa deles passe mais de 60% dos jogos com bola, a maioria desses 80 minutos em que os jogadores não têm a bola são passados em momentos ofensivos. Segundo a própria lógica de Jorge Jesus, há então que admitir que estes momentos são absolutamente cruciais para definir um jogador, e os parágrafos e pequenos vídeos seguintes servirão para mostrar o que de bom Francisco Geraldes tem, hoje, para apresentar neles.

Como foi dito, a inteligência está longe de se manifestar apenas nas decisões que se tomam com bola. E o notável jogador do Sporting mostrou-o, nos cerca de 15 minutos que passou em campo no jogo do passado sábado, com o Boavista. Já Podence tinha estado a um nível acima do habitual titular (Gelson) a esse respeito, ao procurar muito mais espaços centrais e tentar dar soluções diferentes do habitual, mas com a entrada de Geraldes então viu-se algo que só tem paralelo no que fazia João Mário no ano transacto. Numa ou noutra situação o posicionamento do jogador não foi o ideal (por se aproximar demasiado), mas na maioria das situações esse apoio curto que o jogador forneceu não só era o necessário, como era o que invadia o espaço mais perigoso, sendo normalmente entre sectores de adversários. Mas passemos aos vídeos, que permitirão explicar mais alguns pormenores... Em primeiro lugar, alguns vídeos de acções em que o Geraldes não faz nada de minimamente especial com a bola (em metade dos clips nem sequer lhe toca).





Um pouco por todos estes pequenos clips, salta à vista a intenção do jogador leonino em invadir espaços entre as linhas do adversário, de dar boas linhas de passe horizontais/diagonais quando a bola está no corredor lateral e, acima de tudo, a percepção muito interessante que tem da melhor forma de, realmente, dar essas linhas de passe. Às vezes há a tendência deste tipo de jogadores se aproximarem demasiado do portador da bola a todo o instante, quase como se lha fossem pedir ao pé porque a sua vontade é simplesmente de a terem. Isto faz com que dificilmente (embora não seja impossível) recebam a bola em melhor situação do que a do anterior portador. Já o Geraldes, na clara maioria das situações, procura sempre dar opção num local em que, a receber o passe, se crie qualquer tipo de vantagem (dando um exemplo rápido, como nesta imagem).

É esta qualidade que, parece-me, Jorge Jesus ainda não percebeu exactamente em Geraldes, e que, a juntar a tudo o resto, o leva a ser, a meu ver, claramente a melhor opção para jogar na direita, porque a equipa do Sporting está claramente necessitada de um jogador que, partindo da faixa, ofereça este tipo de dinâmica posicional e ligações a zonas fulcrais em posse.

Mas claro, mesmo jogando pouco tempo, também não podia deixar de ter as suas características acções de qualidade com bola (a tal "qualidade individual" de que Jorge Jesus fala):




O passe a rasgar na 1ª situação será, obviamente, o que mais saltará à vista, mas a calma com que procura uma solução curta e vertical mesmo que dentro da sua própria área e ligeiramente pressionado (embora aqui, diga-se, o momento em questão ajude um pouco) na 2ª situação e especialmente o passe para Alan Ruiz na 3ª indiciam claramente a qualidade dele com bola, que já todos conhecemos.

Para o final, deixei uma situação que considero quase paradigmática. Porque, apesar de curta, mostra muita coisa sobre dois jogadores do Sporting. Dois perfis de decisão e formas de ver o jogo opostas, a meu ver uma (muitíssimo) melhor que a outra. 


Geraldes faz tudo bem. Mal Schelotto recebe a bola, procura dar o máximo de profundidade num primeiro momento, por forma a ou conseguir encontrar espaço nas costas da defesa ou, o mais provável, de a obrigar a recuar rápido, isto enquanto acompanha a corrida do colega. Depois, no momento certo, trava, aproveitando que a defesa ia agressivamente na direcção oposta e oferece uma linha de passe central. Infelizmente para ele, jogadores como Schelotto (que, embora seja um dos piores casos a este respeito, está muito longe de ser o único nesta equipa do Sporting) não sabem muito bem o significado da palavra "travar". Nem da ideia "pensar enquanto jogo à bola", note-se... Em vez de perceber a ideia do colega, nem sequer o viu, qual burro com palas, continuando a correr furiosamente até à bandeirola de canto, conseguindo mesmo "ganhá-lo". Alvalade aplaudiu, pois claro, e só não aplaudiu com uma intensidade muito maior porque o jogo estava resolvido. Este tipo de jogador ter muitos minutos é uma das maiores causas para o insucesso contínuo do Sporting, e aqui refiro-me a muito mais que ao Schelotto, que houve e há vários, ao longo dos anos, que enganam muito mais que ele (também são melhores, o que não é propriamente complicado). Mas isso é conversa para outros posts...

4 de abr de 2017

Man Utd em organização ofensiva: O caminho mais utilizado para chegar ao golo


Continua a campanha deprimente do Man Utd no campeonato inglês (mais jogos sem ganhar do que aqueles que ganhou, sendo que em casa conseguiu apenas 6 vitórias em 15 jogos). No mais recente desaire (1x1 frente ao Everton), bem como em tantos outros jogos, este foi um dos caminhos mais utilizados para chegar ao golo. Muita circulação em U, ou seja, por fora do bloco, com o único objetivo de chegar aos corredores laterais e cruzar para a área. Pouca preocupação em criar condições para penetrar com qualidade pelo corredor central. 

Deixo também um dado surpreendente (ou então não) sobre a época do Man Utd

Man Utd crosses per PL game:
Moyes: 26.7 
Mourinho: 25.4 



26 de mar de 2017

A Alemanha de Low. Ideias que ajudam ao sucesso dos jogadores


A melhor seleção do Mundo porque toda a qualidade individual está inserida em ideias de grande qualidade. Em todos os momentos, em todas as situações, os jogadores têm a ajuda do seu treinador. E é este o trabalho do treinador. Ajudar os seus jogadores a ter sucesso. 







20 de mar de 2017

Stillness is a move...


Num jogo em que a obsessão pela "objectividade" e por ritmos frenéticos é cada vez maior, o extraordinário jogador argentino da imagem (que, por falar nisso, deu uma entrevista fantástica há uns dias) mostrou, no dia de ontem, como essa obsessão pode levar ao abandono de certos caminhos menos lineares para desequilibrar organizações adversárias, exactamente por esses requererem uma certa pausa que esta visão tende a desprezar.

Existe um preconceito enorme para a falta de movimento com bola. Acha-se, de forma bastante generalizada, que se um jogador tem a bola não pode perder tempo, tendo de fazer qualquer coisa com ela e, preferencialmente, que seja feita para a frente (mesmo que para a zona da bandeirola de canto). Acções como a de Pastore nos segundos após receber a bola seriam, aliás, e pelo motivo apresentado acima, bastante assobiadas na maioria dos estádios...

Mas avancemos. Poderá parecer contra-intuitivo dizer que alguém completamente parado com a bola nos pés está a agir, acredito. Mas está, e a chave da questão reside num simples pormenor. O facto de um jogador estar parado com a bola nos pés não invalida que o jogo pare. Quem olhe apenas para a zona da bola achará isso, claro, mas enquanto o jogador está parado (ou, caso pressionado, simplesmente a tentar manter a bola perante essa pressão), todo o contexto à sua volta sofre mudanças constantes, por mais ténues que sejam. E os verdadeiros criativos, como Pastore, sabem recusar a primeira e a segunda solução que lhes aparece mal recebem a bola, usando essa pausa como forma de esperar que o contexto se modifique até a solução ideal apareça. Como é dito no título, stillness is a move, visto que essa pausa não funciona como um fim em si mesmo, mas sim como um meio para alcançar o que foi dito acima, ou seja, o aparecimento da melhor solução ou, pelo menos, de uma solução melhor que as iniciais.

Antes de deixar aqui o vídeo, deixo só a nota de que, infelizmente, a mudança do ângulo da câmara no momento em que o Pastore recebe a bola dificulta bastante a percepção da mudança de contexto. Felizmente, arranjei uma repetição que mostra os últimos 2 segundos de Pastore parado com a bola num ângulo que nos permite analisar o contexto, mas ainda assim recomendo que tentem ver tanto o lance como a repetição com atenção e até que vão parando o vídeo nessa altura, se for preciso, para perceberem melhor o que se passa.


Pastore percebe, ao contrário até do que possa parecer, imediatamente qual o melhor caminho para desequilibrar. Caminho esse que, tendo em conta o facto de a defesa do Lyon estar relativamente afundada na área e acima de tudo de o espaço à entrada desta estar muito mal protegido, consistia em passar a quem estivesse à entrada da área e procurar imediatamente o movimento de ruptura. Não havia ninguém nessa zona para efectuar esse passe, no momento em que Pastore recebe a bola, e isso dissuadiria 99% dos jogadores de continuarem a procurar esse espaço. Mesmo que até percebessem que essa seria a melhor forma de darem continuidade ao lance, em termos gerais, achá-la iam impossível no caso em particular por não lá terem nenhum colega (e sê-lo-ia, no momento em que recebessem a bola). Mas os jogadores especiais, que realmente vêm à frente, têm este tipo de ferramentas para conseguirem manipular o jogo a seu favor. Esteve sempre à espera que Di María invadisse o espaço pretendido, procurando manter a bola o máximo de tempo possível até isso acontecer, e depois foi só executar o que já tinha idealizado na sua cabeça antes de qualquer pessoa sequer ver essa possibilidade. A partir do momento em que encontra Di María e este devolve, todo o desequilíbrio está criado, sendo o resto do lance relativamente trivial.

No entanto, e para concluír, interessa-me referir um pormenor. De um jogador verdadeiramente criativo procurar ao máximo a decisão que maior potencial poderá trazer ao lance, não se segue que a force. Caso Di María não se inserisse nesse espaço, Pastore teria certamente alternativas na sua cabeça para dar seguimento ao lance, embora tendo a noção de que eram muito menos vantajosas. O jogador verdadeiramente criativo não é o que força, é o que espera, engana e manipula ao máximo até surgir a opção ideal, mas que têm a noção de que, se ela não surgir, não é crime nenhum procurar opções mais seguras.

12 de mar de 2017

Nápoles: controlo da profundidade. Bola descoberta



Neste tipo de situações, este é na minha opinião o comportamento defensivo que garante mais sucesso. Portador da bola em progressão, toda a linha defensiva recua para controlar a profundidade. Quando o portador se aproxima da área, alguém sai na contenção para dificultar a execução do passe ou remate, enquanto que os restante oferecem cobertura defensiva. 

  • Se sair passe, e mesmo havendo a possibilidade de ser bem sucedido, é um passe de maior dificuldade, uma vez que o menor espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes exige que o passe seja feito com mais precisão e com a força ideal. 
  • Se sair remate, já vai estar condicionado pelo jogador que saiu na bola. 
  • Caso o portador decida fintar o jogador que sai na contenção, os restantes 3 que oferecem cobertura, e que não entram na área, estão suficientemente próximos para reagir rápido.

9 de mar de 2017

As vantagens do 3x4x3 losango que permitiu ao Barça a remontada mais incrível da história


É impossível dissociar a remontada épica que o Barcelona conseguiu alcançar, do sistema de jogo utilizado no jogo da 2ª mão. Pese embora a estratégia conservadora de Emery, só foi possível encostar o PSG durante 90 minutos à sua própria área porque o sistema escolhido por Luis Enrique assim o permitiu.


O que o Emery queria, e o que o 3x4x3 losango o obrigou a fazer. De um bloco médio/baixo para estarem praticamente "enfiados" dentro da sua área. A enorme rede de apoios que o portador da bola tinha permitiu ao Barça uma circulação muito apoiada, muito curta. Nunca faltaram linhas de passe dentro do bloco adversário, nem em largura.


Sem bola, foram também notórias as vantagens que este sistema trouxe ao futebol do Barça. A maneira conseguiu condicionar a construção do adversário e como conseguiu "abafar" após a perda da bola, só foi possível devido ao grande números de jogadores que estavam no meio campo ofensivo aquando da mesma.


Muitos jogadores no meio campo ofensivo, e quase todas as linhas de passe do adversário a serem condicionadas. Coberturas sempre garantidas.



Heat Map de Pique

Heat Map dos 3 defesas do Barça que passaram 51% do tempo no meio campo do PSG

8 de mar de 2017

Bas Dost, o desenquadrado...


... literal e figurativamente.

Literalmente por muitos o acusarem de nunca se enquadrar com a baliza adversária, quando recebe, e daí extrapolarem para a ideia de que ele é praticamente inútil com bola. Se é verdade que ele por vezes deixa passar oportunidades em que o contexto lhe pede para o fazer (embora seja ainda assim uma crítica exagerada, na forma como é feita), é acima de tudo a extrapolação que importa rebater. De um avançado ser pouco móvel e de não procurar com frequência oportunidades de receber e rodar para a baliza contrária, não se segue a sua inutilidade nesse momento. Um dos papéis mais importantes de um avançado é saber servir de apoio frontal, compreender as movimentações e intenções dos colegas, saber combinar com eles e mesmo conseguir fazer algo de inesperado através desse entendimento dos colegas e do contexto.

Ao contrário de muitos, logo nos primeiros jogos lhe vi muitos destes atributos. Apenas achava que falhava bastante na forma como (não) se movimentava, muitas vezes, para servir de apoio, tendo algumas dificuldades para perceber o contexto na questão da movimentação fora da área. Mas o que lhe podia faltar nessa movimentação, não só pode ser explicado pelo que lhe exigiam no Wolfsburg (que ficasse nas costas da defesa para finalizar, e que não saísse muito desse registo), como lhe sobrava na forma como se associava quando de facto tinha a bola. Há também dizer que, ao adaptar-se ao que Jorge Jesus lhe pedia, melhorou bastante nesse sentido (embora seja, por ventura, a área em que ainda devesse evoluir mais).

Um tipo de movimentação em particular, fora da área (embora normalmente perto dela), em que ele é bastante forte, é, quando vê colegas à sua ilharga e a bola vem com força, simular que vai dominar a bola, mas deixá-la passar para um colega e movimentar-se rapidamente nas costas da defesa. Isto cria bastante dúvida nos defesas, podendo facilitar não só a recepção do jogador que tem a bola, como um eventual passe desse jogador a aproveitar a subsequente movimentação.

Abaixo fica um exemplo, embora esteja longe de ser o melhor (era o único que estava no resumo...).


Figurativamente... porque é um jogador que foge da caixinha em que quem olha para um pinheiro de 1m96 o pode tentar encaixar. Poder-se-ia esperar, por parte de quem não o conhecesse, um tanque de guerra que vivesse do choque e do jogo aéreo. Na verdade, não se destaca em nenhum desses. É bastante franzino para a sua altura, os seus números fantásticos de golos devem-se muito mais à forma como se movimenta dentro da área do que a qualquer supremacia física e, acima de tudo, a forma como procura sempre em primeiro lugar os colegas para os enquadrar (juro que não foi de propósito! ), assistir ou combinar, sendo perfeitamente capaz de ignorar uma boa oportunidade de remate se vir um colega em melhor situação. O que só dá crédito ao registo de golos que tem. Para além disso, não se fica por "dar em quem sabe". Mesmo ao primeiro toque, é capaz de descobrir soluções inovadoras e com uma dificuldade cognitiva bastante elevada.

Foge também do que é a equipa actualmente. O Sporting cai muitas vezes numa falsa atracção, procurando exagerar nos cruzamentos para ele, pensando que é a melhor forma de o aproveitar. Não é, pelo que foi dito acima. Na recepção ao Vitória SC, por exemplo, foi facilmente o jogador que mais coisas diferentes criou em campo. Merecia jogar no Sporting do ano passado, por exemplo, que praticava um futebol imensamente mais criativo colectivamente. Jonas está obviamente numa liga diferente de todos os outros avançados do nosso campeonato, mas se tivesse de escolher alguém para fazer parelha com ele, era o Dost. O que é um dos melhores elogios que lhe consigo fazer...

No fundo, e mais uma vez, nem tudo o que parece é. Poucos esperariam de um avançado pouco ágil e sem atributos técnicos especiais de 1m96 acções como a do clip abaixo (e há mais de onde estas vieram, são só uns poucos exemplos), mas é por isso que há que ser cuidadoso na análise, e procurar analisar os jogadores pelo que são.

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